Suicídio

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Palestra realizada na Comunhão Espírita de Brasília

Em 24 de dezembro de 1900, nasce uma criança no Rio de Janeiro chamada Yvonne Amaral Pereira. Yvonne só desencarnaria 83 anos depois, em nove de março de 1984. Foi uma médium impressionante. Ela, que era uma suicida reencarnada, trazia consigo graves compromissos com almas sofredoras.

Desde muito cedo sua mediunidade apareceu. E, embora ela não tenha chegado às culminâncias do reconhecimento público que Chico Xavier teve, na sua simplicidade foi sempre instrumento para o trabalho mediúnico junto aos espíritos sempre sofredores que se comunicavam através dela. León Denis foi o seu protetor espiritual e Victor Hugo, o grande Victor Hugo, escreveu livros maravilhosos através dela.

E, certa feita, um suicida que com ela se afinizou apresentou-se a ela, dizendo que tinha um sonho, cuja realização havia sido autorizada pela espiritualidade, de, embora alma torturada que fosse, escrever a própria história... E esse espírito, depois de procurar muitos médiuns, havia se simpatizado com Yvonne Pereira, e iria começa a escrever através dela...

Quando a obra termina de ser psicografada, Yvonne contando 26 anos, havia ali um grande  problema: estávamos no ano de 1926, e o livro falava de coisas que não existiam ainda na Terra, como de televisão e de outras tecnologias que só mais tarde surgiriam. Assim, a espiritualidade, sabendo que, se o livro fosse lançado, poderia trazer grandes problemas para  médium, que já  tinha problemas de saúde sérios que a acompanharam ao longo de toda a vida, permitiu que ela guardasse aquela obra completa por algum tempo, sem publicar. Yvonne então manteve aquela obra guardada numa gaveta, e somente no ano de 1954 a FEB lançou, com a autorização de León Denis, Memórias de um Suicida.

Memórias de um Suicida é um livro extraordinário, uma obra  que narra todo o sofrimento do escritor português Camilo Castelo Branco, que assumiu o pseudônimo de Camilo Cândido Botelho, porque o livro fora lançado em 1954, e, em 1944, portanto dez anos antes, Chico Xavier havia sido obrigado à ir Justiça, acusado pela família do jornalista Humberto de Campos, de, vamos dizer assim, fingir que recebia Humberto de Campos!...

Então, para evitar esse tormento, os editores decidiram-se pelo pseudônimo, sob protesto do espírito Camilo Castelo Branco, que desejava que seu nome completo, seu nome verdadeiro, assinasse a obra. Isso porque o desejo daquela alma era verdadeiramente contar às pessoas o seu tormento após o gesto do suicídio.

Memórias de um Suicida é um livro magnífico. Lançado em 1954, nessa época León Denis explicava à Yvonne que o autor da obra já estava, naquele momento, em processo reencarnatório e que, por isso, não poderia mais fazer a revisão do livro. Diante disso, León Denis assume essa possibilidade, e o livro é publicado. Esta obra compõe-se por três partes: Os Réprobos; Os Departamentos; e a terceira parte, a Cidade Universitária.

Lendo Memórias de um Suicida logo a gente percebe que, na espiritualidade, Camilo Castelo Branco meio que amedrontou-se, se pudermos dizer assim, no sentido de perceber que ele precisava ficar o maior tempo possível desencarnado, porque, ao mergulhar na carne, passaria de novo, pela grande prova que não soubera vivenciar: a cegueira.

Quando se viu cego, Camilo dera um tiro no próprio ouvido, porque se considerara o último dos párias. “Como é que ele, um escritor, estava cego?!?!”, pensava. “Como é que dependeria da caridade alheia, para tatear as paredes, para alimentar-se, para banhar-se?!”. Diante dessa angústia, ele optou, então, pela porta do suicídio, segundo o seu entendimento à época, o caminho mais rápido e que seria o mais confortável...

E Memórias de um Suicida começa no ponto em que ele diz: “exatamente no mês de janeiro de 1891, fui eu preso de uma região de sofrimento...”. E, ali, começa a descrever o seu calvário. Em janeiro de 1891, Camilo se mata e, para a sua surpresa, descobre que, com o seu gesto, apenas o corpo físico pereceria. Ele continuaria ainda vivendo, ainda cego, embora pudesse dar conta de tudo o que se passasse à sua volta.

Camilo sentia um cheiro insuportável de carne humana se decompondo, até perceber que estava sentado sobre o próprio túmulo, onde o seu corpo se deteriorava. E os espíritos sofredores que andavam por aquele cemitério gritavam para ele: “suicida, suicida!!!”. Ao que  ele respondia: “eu, suicida?! Nunca!!! Pois que eu não me matei, estou vivo!!! Eu tentei, é verdade, me matar, mas não consegui...”. Ele já estava desencarnado, tinha sido enterrado, já estava até sendo esquecido pelas pessoas que ele tanto amara, mas que, é óbvio,  em sua maioria consideravam que ele havia se  acovardado, que não lhes dera o valor devido, fugindo da vida e menosprezando os seus sentimentos de afeto...

Camilo então narra, nos primeiros capítulos do livro, toda a sua trajetória de desespero nas cavernas escuras onde passou a viver, totalmente dementado, enlouquecido, porque se julgava ainda imerso em um corpo de carne. Naquela caverna brutal buscava se proteger ao lado de mais quatro espíritos, portugueses como ele, de quem só bem mais tarde, quando puderam os cinco vir a ser socorridos, descobriria os respectivos nomes, assim como saberia do tempo que haviam ficado naquela região de padecimento.

Ali, naquele lugar, em determinado momento soava um tipo de sirene. Era quando chegavam  espíritos abnegados, vestidos da forma hindu, em carruagens luminosas e espécimes de padiolas, para carregar sofredores autorizados a serem tirados dali. Para a surpresa de Camilo, ele nunca era escolhido: nem ele, nem os amigos que moravam com ele.

Nesses momentos, quando os enfermeiros tinham muita dificuldade em encontrar alguém, uma voz, vinda não se sabia de onde, como se fosse um grande megafone, dizia a eles: “fulano de tal, rua tal.”. Ou: “vocês vão encontrá-lo desmaiado em tal lugar.”... E aí, imediatamente, os enfermeiros iam até onde estava aquele espírito, muitas vezes caído, recolhiam-no e o colocavam nas ambulâncias. E é óbvio que, quando as portas das ambulâncias fechavam-se, aquelas almas desesperadas subiam sobre as ambulâncias, querendo invadi-las, porque sabiam que, por enquanto, não sairiam dali. O socorro ia embora, naturalmente, e o silêncio entrecortado de gritos pavorosos voltava a reinar. E Camilo não podia compreender porque apenas determinados deles eram socorridos...

Bem mais tarde Camilo vem a entender, estudando na espiritualidade, que nós temos um cordão fluídico, semelhante ao cordão umbilical que une o bebê à mãe, que une o nosso corpo físico ao nosso perispírito. Ali está todo o tônus vital que vamos gastar, ao longo de  60, 70, 80 anos nesta vida. E esse cordão fluídico só escurecerá, luminoso que é, quando chegar a hora definitiva da nossa partida. Ele se desfaz quando as pessoas agonizam; quando morrem naturalmente; e mesmo quando lhes advém uma morte violenta, no sentido de um acidente, se para isso elas não incorreram. Então, nesses casos, ele irá se desfazendo, se despregando, naquele instante que chamamos agônico. Mas o suicida não tem tempo para isso: ele perece, faz perecer o corpo por sua própria vontade, e rasga obrigatoriamente aquele cordão fluídico, contrariando uma lei que é Divina.

Imagine uma pessoa cometer um ato desses aos 28 anos de idade e ter tônus vital para viver na Terra por 80, 85 anos ou até mais... Aquilo fica ainda luminoso, o pedaço que sobra fica pendurado na pessoa e, obviamente, torna-se uma visão terrível. A pessoa torna-se, naturalmente, uma alma sofredora, uma alma suicida, portando aquele cordão fluídico que ainda retém a energia que deveria estar sendo usada, vivenciada na Terra.

Com esses estudos é que Camilo percebe que, lá naquela região de sombra em que ele esteve, quem tinha o cordão fluídico enfim apagado é que era recolhido pelas ambulâncias. Porque somente então estava finda a energia que deveria ter sido gasta na Terra. Só quando isso aconteceu também a ele e aos seus companheiros foi que a ambulância, naquele dia, chamou  os seus nomes. E aí ele veio a descobrir o nome dos outros quatro infelizes que estiveram com ele naquela região de sofrimento atroz, onde a dor era tamanha, a raiva, o desespero eram tamanhos que eles não podiam nem se dar ao luxo de perguntarem os próprios nomes uns aos outros.

Um estado de exaustão total, dias antes do recolhimento, havia acometido aos cinco infelizes daquela caverna, e eles não conseguiam mais nem sair do lugar onde estavam. É nesse momento que vêm as ambulâncias e os recolhem. E Camilo termina toda essa descrição, dizendo: “Deus do céu, saíramos daquele inferno absoluto!...”.

E, detalhe: ali, cada suicida via, no outro, seu próprio momento tresloucado do suicídio. Então os suicidas saíam por ali, andando sem razão, procurando uma saída daquele lugar, do Vale dos Suicidas, criado pelas próprias mentes doentias daqueles que estavam ali reunidos, por afinidade, e, de repente, passava-lhes um trem desgovernado, saído fortemente da imaginação daqueles que haviam se lançado à frente deste meio de transporte, por exemplo. Ou então eram apavorados por mulheres – e Camilo cita que a maioria nessa condição eram mulheres – que passavam correndo, tomadas por labaredas de fogo em seus corpos espirituais, porque haviam se matado atiçando álcool ao corpo e aí ateado fogo em suas próprias vestes.

Então, imaginem o drama do suicida, de viver o seu próprio pesadelo e conviver com o pesadelo dos outros, à sua volta. Essas regiões, de extremo sofrimento, no mundo espiritual, existem porque um enorme número de almas sofredoras se reúne no mesmo lugar e mentaliza aquelas situações absolutamente terríveis.

E não adianta dizermos que, de alguma forma, vamos encontrar justificativas para o gesto do suicídio, porque não encontraremos. Os espíritos sempre nos lembram que o suicídio é o único gesto que, se tomado na Terra, para ele, no mundo espiritual, não conseguiremos encontrar qualquer justificativa. E, é claro, o espírito passa a vivenciar a situação de uma alma que lançou, à face de Deus, o corpo físico que era empréstimo para si mesmo... 100, 200, mais anos às vezes não são suficientes para esse resgate.

E Camilo começa a perceber que a sua volta à Terra, no futuro, seria novamente com a cegueira. Porque justamente a não aceitação da cegueira havia sido a causa do seu suicídio. E conhece também a história de Mário Sobral, um dos seus companheiros de infortúnio: quando na Terra, Mário tinha família, filhos... mas apaixonara-se perdidamente por uma mulher, num prostíbulo, chamada Eulina. Tão apaixonado tornou-se que, ao descobrir-lhe a traição, resolve matá-la e depois suicidar-se. Mário estrangula Eulina e, depois, pendura-se no teto, enforcando-se.

Quando ambos, Camilo e Mário, começam a apresentar melhoras no mundo espiritual, acolhidos no Hospital Maria de Nazaré, hospital da espiritualidade que recebe almas suicidas, principalmente aquelas desencarnadas em Portugal, Espanha, Brasil, ali, quando eles começam a melhorar, Mário diz a ele: “Camilo, eu já percebi que não vou conseguir resolver todos os meus débitos ficando aqui. Já percebi que vou ter de voltar à Terra. Mas o que mais me preocupa é que estou sentindo as minhas mãos como que dormentes, eu não estou sentindo as minhas mãos... e alguma coisa me diz que eu vou renascer sem as mãos, porque eu deixei as minhas mãos no pescoço de Eulina, a amante que confiava em mim e que eu matei...”. E não deu outra: para voltar à  Terra e resgatar os débitos, Mário Sobral vem sem as mãos. (Nem preciso dizer a vocês que aquela que o recebeu como filho foi a mesma Eulina, a ex-amante morta por ele, agora em novo corpo. Vítima ontem; hoje, protetora, porque o perdoara completamente e pôde, então, recebê-lo como filho).

Camilo não se enganara: ele percebe que, muitas vezes, as almas suicidas adiam sua necessária volta à Terra por falta de coragem. No retorno à Terra, as almas suicidas têm de tentar  estabelecer, novamente, aquele processo anterior de sofrimento, para, enfim, resgatar o  que haviam deixado de fazer.

João d’Azevedo, que Camilo vem a conhecer na espiritualidade, pessoa que tinha perdido toda a sua fortuna no baralho, percebe, no mundo espiritual, a necessidade de ajudar àqueles que estavam, na Terra, nas casas de jogos. E se sente atraído a renascer e se aproximar, de novo, de uma dessas casas, agora com outras intenções, porque ali estava o seu processo de resgate também.

Belarmino, que havia, por causa da tuberculose, aberto os próprios pulsos, por não admitir a doença e toda a desgraça que com ela adviria, ao final do século XIX, ali percebe claramente que teria de voltar à Terra tuberculoso novamente. E pede, então, para voltar na região do nordeste brasileiro, filho de mãe e pai paupérrimos, para, ainda na infância, passar por essa prova.

Diante de tantos quadros terríveis, Camilo vai ficando cada vez mais acovardado, porque ele também teria de enfrentar o seu passado... E muito sofre porque, ao retornar em visita, 17 anos após o seu suicídio, a Portugal, percebe que ninguém mais se lembrava dele. É quando começa a procurar médiuns, através dos quais poderia escrever sobre a sobrevivência da alma, mas vê o preconceito arraigado na sociedade da época: os médiuns que afirmavam tê-lo recebido eram taxados de loucos, porque “jamais o grande Camilo Castelo Branco poderia estar vivo, além da morte”...

E é em Memórias de um Suicida que Camilo nos leva a essa viagem impressionante. Lembrando-nos sempre que o gesto máximo de desistir da vida começa a partir dos nossos pequenos desânimos não solucionados. Começa nos dias em que nós vamos acumulando a  descrença, a tristeza, a insaturação das alegrias que achamos que nunca temos e que nunca teremos.

Os amigos espirituais nos têm reiteradamente transmitido mensagens chamando-nos a atenção para o fortalecimento do nosso coração, da nossa consciência, do nosso espírito aguerrido, porque dizem que os próximos quatro anos na Terra serão de enormes lutas e dificuldades para todos nós, pessoal e coletivamente. Se nós começarmos a pensar em fantasmas, se começarmos a achar que as coisas não vão dar certo, vamos sendo minados, não importando a idade física que tenhamos. Se colocarmos muitas dificuldades para aceitarmos a vida como ela é, torna-se então mais difícil que ela se torne melhor... Por isso é que livros psicografados em 1926, quanto tantos de nós ainda nem estávamos na Terra, são ainda tão fundamentais, para nos lembrar que somos nós mesmos que fazemos a nossa vida, somos nós mesmos que tomamos as nossas decisões, somos nós mesmos que resolvemos como será a nossa relação com o outro e o quanto vamos deixar que o outro nos magoe, nos infelicite, não nos respeite; ou nos ame, nos leve para cima, nos diga e nos faça crer que dias melhores virão, que nós vamos construí-los em todos os instantes da nossa existência.

Nesse contexto, as religiões são fundamentais, todas elas, porque cada um de nós, dentro da nossa maturidade específica, precisa de determinada religião. E é por isso que religião não se discute, porque cada um de nós precisa ter a sua própria convicção, que é individual e intransferível. Nós, que nos enamoramos da Doutrina Espírita, costumamos dizer aos outros que sabemos mais... E acho graça ao me lembrar de conhecido poeta, que, nos últimos anos de sua existência na Terra, enamorou-se também da Doutrina Espírita. Este poeta, curiosamente, mandou escrever em sua lápide: “agora, com certeza, eu sei mais do que todos vocês!...”.

A verdade é que a morte física nos faz de novo recuperar a memória eterna. Extraordinário pensar que todos nós fomos criados por Deus para essa beleza que às vezes mal percebemos, mas que um dia será toda nossa, a verdade da Vida Maior. E mais generoso e sábio é também  percebermos que os nossos adversários, aqueles que não nos amam, aqueles que não nos entendem, aqueles que até nos prejudicam, foram criados pelo mesmo ato divino, foram criados para a mesma destinação. E, portanto, respeitar a Deus e às forças do Bem que protegem o universo é também respeitar o outro, mesmo quando esse outro não tem o necessário equilíbrio e nem maturidade para praticar respeito. Se nós vamos acusar alguém, se vamos apontar alguém, verifiquemos se não estamos em situação igual ou até mais difícil do que aquele companheiro que estamos apontando. É básico.

Camilo vai aprendendo tudo isso pelos hospitais por onde passa, sempre internado. E percebe que, entre ele e os amigos, havia sempre uma tristeza que nunca passava, embora fossem amorosamente tutelados por grandes espíritos de luz, ali, naquela ocasião, hindus principalmente, que trabalhavam na recuperação das almas suicidas, no grande Hospital Maria de Nazaré. A própria mãe do Cristo, protetora de todas as almas sofredoras, em especial dos suicidas, dirige a plêiade imensa de almas que protege e abençoa a todos os espíritos que, por extrema infelicidade, fugiram da vida pelas próprias mãos.

E o grande autor português percebe também que aquela grande tristeza que sentiam estava relacionada ao fracasso da alma cometido, fracasso de não ter conseguido esperar até o fim, para a solução das dificuldades. E Camilo chega ao estágio, 17 anos após o seu suicídio, de já estar em condições de realizar visitas, no próprio hospital em que estava internado, àqueles que estavam chegando, recém-chegados do Vale dos Suicidas, nas mesmas condições desesperadoras em que, um dia, ele também ali chegara. E Camilo então passou a falar, a esses novos pacientes do Hospital Maria de Nazaré, com palavras amorosas, contando sua própria experiência, dizendo que ali os esperaria um novo processo de reencarnação, e que ele também passaria por isso...

E é tão delicada a recuperação do suicida que Camilo Castelo Branco chegou a uma área, do hospital, chamada manicômio. Ali, ao contrário do que se poderia imaginar, não estão pessoas enlouquecidas simplesmente, mas pessoas cristalizadas em suas próprias teorias inabaláveis sobre si mesmas. Então ali estão suicidas que afirmam, muitas vezes quase um século depois do ato que praticaram, que, não, não fizeram nada de errado... Espíritos que entram num processo absoluto de cristalização hipnótica. E ficam ali porque é preciso que, diariamente, sejam tutelados por mentores.

Nesse manicômio Camilo conhece Agenor Penalva, espírito que tinha sido socorrido há 39 anos, mas que ainda trazia consigo a nobre roupa do fidalgo espanhol que havia sido. Diariamente, um dos mentores de Agenor Penalva precisava ir até o seu quarto, naquele  manicômio, colocar uma frase do Pentateuco num caderno e dizer a ele: “meu filho, você hoje vai escrever sobre isso...”. E, muitas vezes, Agenor ficava revoltado. Dizia: “de jeito nenhum!!! O que eu estou fazendo aqui há tanto tempo?!?!...”. Ele, que se dizia vítima de toda uma situação...

E, exatamente naquele dia em que Camilo visitou o manicômio, o mentor de Agenor colocou-lhe no caderno a assertiva: “honrai a vosso pai e à vossa mãe.”. E Agenor ficou indignado: “o quê?!?! Eu vou ter de escrever sobre isso?! Logo eu, que adorava a minha mãezinha, minha mãezinha era tudo para mim!!! Eu, que jamais criei um desgosto para ela!...”. E então o mentor calmamente o conduziu: “Agenor, eu acho que você não está se lembrando... Vamos até a outra sala...”. E ali, na outra sala, colocou Agenor, sob ordens, não sob pedido, numa espécie de máquina, quando Agenor começou a gritar: “não, por favor, hoje eu não estou preparado, hoje eu não estou podendo, estou me sentindo fraco, vamos deixar para amanhã...”. Mas o mentor: “não, Agenor, você já está adiando muito a sua recuperação...”. E ali, naquela máquina,  aparece, qual fora um filme projetado à frente, cenas de como havia sido, de verdade, a relação de Agenor Penalva com a sua pobre mãe, que ele lançara à miséria absoluta.

A verdade é que nós somos aquilo que nós mesmos fazemos de nós, e, do outro lado da vida, um dia, nós vamos contar a nossa própria história, queiramos ou não. Porque, para voltarmos à Terra, e voltar à Terra ainda será necessário para nós por muito tempo, já que a Terra é o hospital-escola que nos acolhe, nós vamos ter de refazer a nossa programação, vamos ter de observar tudo o que não fizemos. Hoje isso pode nos parecer a mais absoluta tolice, mas, amanhã, do outro lado da existência, entenderemos a gravidade de todos os nossos gestos, palavras, do silêncio, dos sonhos, das mentalizações, daquilo que pensamos embora não tenhamos falado, porque pelos nossos pensamentos também seremos observados.

Por isso tudo é que Jesus afirmava: “o Pai vê o que fazes em segredo.”... E Paulo de Tarso disse  que somos acompanhados por uma nuvem de testemunhas invisíveis...

Fora da matéria, quem sabe já não teremos sido nós também obsessores, perseguidores daqueles que amávamos e que não queríamos ver felizes sem a nossa presença. Quem sabe já não tenhamos nós também sido suicidas???

E Camilo nos narra, em Memórias de um Suicida, todo esse processo de escondermo-nos de nós mesmos. E nos lembra que, tal como ele e seus amigos, muitos de nós também somos especialistas nisso: em fingir; em esquecer; em fingir que somos felizes, para não tocarmos em determinadas feridas que precisamos severamente solucionar; em fingir que respeitamos o outro, quando queremos que o outro esteja sob nossa tutela e faça somente aquilo que é conveniente e “bom” para nós...

Muitas vezes nós afirmamos que nossos filhos têm toda a liberdade, que podem fazer o que quiserem, mas, se nos contrariam, sonhando algum sonho que nós não queremos que eles sonhem, então já ficamos desesperados. Mas nossos filhos também são almas que vêm do espaço, como diz o Evangelho Segundo o Espiritismo, para progredir em nossos braços. E, não nos esqueçamos, muitas vezes suas escolhas não serão aquelas que nós pretenderíamos, por considerarmos serem as melhores.

Emmanuel dizia, através da mediunidade de Chico Xavier, que, às vezes, um pai ia procurar orientação espiritual, querendo o filho engenheiro ou médico, mas que uma enxada, nas mãos daquele filho, ensinaria muito mais!... E, é óbvio, ninguém quer isso: queremos nossos filhos brilhando, nossos filhos, se possível, com mais de uma universidade... mas, às vezes, a alma vem não para ser um doutor, mas para recuperar emocionalmente aquilo que desgastou pelo caminho em vidas em que conseguiu ser um doutor, mas não soube honrar o diploma, ou a própria profissão escolhida.

Todas essas pessoas que hoje vemos, muitas vezes pela televisão, como pessoas enlouquecidas, dementadas, assassinas, vingativas, pessoas tresloucadas que não perdoam, que roubam e que, naturalmente, muitas das vezes, não serão talvez capturadas pela justiça terrena, no mundo espiritual certamente estarão em um processo de loucura, e muitas delas não serão mais convidadas nem mesmo a habitarem a Terra.

Em sua saga, Camilo chega a um departamento, o Departamento da Reencarnação, em que os espíritos suicidas observavam, em matrizes maravilhosas sobre uma mesa, a reprodução dos corpos que tinham tido na Terra, quando se mataram. E, ao lado dessa imagem, num monturo, como tinha ficado o corpo, depois do gesto do suicídio.

Sofrimento por demais atroz viviam aqueles que se haviam lançado à frente de carros, de trens, de carruagens, aqueles que se haviam lançado de prédios, abismos, e ficavam completamente retalhados, no seu perispírito também. E ali, no Departamento da Reencarnação, todos tinham de planejar sua próxima existência.

No dia em que Camilo fora a esse Departamento, justamente naquele dia, dois espíritos grandemente sofredores estavam também ali para pedirem pelos seus próprios processos reencarnatórios. E, desafio: descobriram que era preciso encontrar mães que os quisessem! E então, durante as horas da noite na Terra, durante o sono, o espíritos do Hospital Maria de Nazaré foram buscar duas jovens. Uma morava na Ilha de São Miguel, em Portugal; a outra, no nordeste brasileiro. Vocês imaginem: as duas, desdobradas, fora da matéria, foram levadas até aquele Departamento e lhes foram apresentados os dois espíritos que pediam a elas que os recebessem como filhos...

A portuguesa tinha ao seu lado, desdobrado com ela, o marido. Eram recém-casados, ela tinha somente 18 anos e, quando viu aquela alma suicida que se candidatava, logo disse: “Mas de jeito nenhum!... Eu e meu marido somos recém-casados, temos tantos sonhos, queremos um filho risonho, sadio. E, além do mais, nós moramos no meio de uma ilha: como é que o nosso primeiro filho vai ser assim, retardado?!?! Não posso.”. A outra jovem, solteira, do nordeste brasileiro, que havia sido seduzida por um rapaz que, naturalmente, nada haveria de querer  com ela, chorava copiosa, dizendo: “se eu apareço grávida, meus pais me matam!... Eu não posso receber nem uma criança sadia, quanto mais uma alma suicida...”.

E os espíritos, tranqüilos, calados, escutavam. Até que, diante da decisão das duas, de não quererem aceitar aquilo que era um convite da espiritualidade, resolvem levá-las a uma outra sala, onde, rapidamente, elas ficam sabendo o que tinham feito das duas últimas encarnações que lhes haviam sido concedidas por permissão divina... Os espíritos são sutis, não é?!

A gente esbraveja, chora, fala “eu quero fazer e acontecer”, “quero ser uma mistura de Frank Sinatra com Roberto Carlos”... não é?! Mas, que nada: Camilo nos conta que as duas jovens saíram daquela sala, naquela noite, abraçadas àquelas almas suicidas, dispostas imediatamente a recebê-las. Na pobreza, na enfermidade, na incapacidade física, iriam receber aqueles espíritos, porque elas sabiam que precisavam desse gesto de amor, para também poderem avançar.

Para a nossa surpresa, Camilo também nos conta que todos nós deixamos, no mundo espiritual, vida após vida, uma espécie de relatório, onde declaramos que nos predispomos a receber determinadas almas ao nosso lado, face as nossas dívidas de existências anteriores. Mas, quando isso acontece, no momento em que estamos aqui na Terra, no auge da nossa felicidade, da dita beleza, da alegria, da saúde, quando algo ameaça nos interceptar o caminho, nós imediatamente já blasfemamos: “Deus não existe! Pra quê que eu vou tanto à casa espírita, pra quê que eu assisto palestra e tomo passe?! Pra isso???!!!”. Isso no caso nosso, os espíritas...

E Camilo também nos recorda, na sua obra magnífica, que o afeto está intimamente relacionado à nossa saúde, à nossa capacidade de pensar com discernimento, e que a Medicina só avançará (e disse isso em 1926, hein?!) quando os médicos não nos virem mais apenas como um corpo, mas como um todo complexo. E é por isso que os amigos espirituais nos afirmam que, num distante futuro, na Terra, os médicos terão, inclusive, acesso às nossas vidas anteriores, para que possam entender, junto conosco, o porquê de situações como a de quem nunca fumou, mas traz uma enfermidade pulmonar; a situação de quem nunca provou álcool, mas tem o fígado problemático; ou a situação de quem, por exemplo, nunca está bem, ou nunca cometeu qualquer excesso, mas traz insuficiência renal inexplicável... Somos o passado em forma de presente!

E, em 1954, Yvonne veio a saber que Camilo já estava em seu processo reencarnatório. Durante 64 anos Camilo conseguira adiar a sua volta. Hoje, nos contam os amigos espirituais, ele está na Terra, é espírita e completamente cego. Camilo pediu que tivesse a possibilidade de conhecer, nesta sua vida, a Doutrina Espírita, porque, estudando, fora da matéria, percebeu que, talvez, se tivesse tido contato com essa doutrina esclarecedora, em sua encarnação  pregressa, talvez não tivesse cometido o disparate do gesto do suicídio.

Camilo, que teve a oportunidade de assistir aulas na espiritualidade com o Dr. Bezerra de Menezes e com o grande poeta Bittencourt Sampaio, nos conta da vergonha de, a todo momento, se ver colocando a mão a tapar o ouvido, no tique nervoso de tentar estancar o sangue que ele sentia como se  borbotasse  sobre ele - sangue que, na verdade, estava na sua imaginação, porque seu corpo físico já não existia há muito tempo.

Para tentar controlar esses distúrbios, Camilo e seus amigos buscavam assistir as palestras para as almas suicidas, no plano espiritual, sentando-se sobre as próprias mãos. E ele via que, como ele, que a toda hora levava a mão ao ouvido, também Mário Sobral a todo instante colocava as mãos em volta do pescoço, como a tirar o lençol com que se havia enforcado após matar Eulina. Como ambos, também Belarmino via sair dos seus pulsos o sangue que ele não conseguia estancar de forma nenhuma... Camilo e seus amigos só conseguiram se livrar desses tiques nervosos  após longos processos hipnóticos realizados pelos irmãos hindus, que coordenavam toda a recuperação das almas suicidas nas regiões da espiritualidade.

E eu me lembro que, há muitos anos, quando eu contava 17 anos, estávamos todos aqui na mesa, realizando a prece dos suicidas, quando adentrou ao recinto uma mulher desesperada. Era uma mulher desencarnada é claro. Estava envolta em chamas, enlouquecida. Ela atravessou aquela porta e chegou até aqui, à frente. Essa mulher gritava tresloucadamente, porque seu corpo estava todo dominado pelo fogo. E, naquela loucura, ela pedia que alguém jogasse água sobre ela, pelo amor de Deus, para que o fogo desaparecesse... E eu comecei a me comover, óbvio, porque via que aquele espírito estava desesperadamente pedindo socorro...

Então, eis que  sai, do meio da platéia de desencarnados, um jovem, lindíssimo, que vem até aquela moça em chamas e coloca a mão sobre a cabeça dela. Naquele momento, nós vimos sair um jato de luz safirina da mão do rapaz. Imediatamente a pobre moça grita aliviada: “água, água... vocês me ajudaram, jogando água sobre mim...”. O dr. Bezerra de Menezes, presente àquela reunião, então nos disse que aquela moça, 58 anos antes, havia matado aos quatro filhos e ateado fogo ao próprio corpo. 58 anos! E apenas naquele dia ela estava adentrando à Comunhão Espírita de Brasília e pedindo socorro,  às 18 horas de um domingo, na prece dos suicidas. Foi uma cena encantadora, porque o próprio dr. Bezerra abraçou com carinho aquela jovem, a envolveu exausta em seu colo e levou-a...

Eu, admirada com a cena e com a beleza daquele jovem que a socorrera, comentei com os presentes que eu estava impressionada com a beleza do rapaz, com a luz que irradiava dele, com a generosidade inata do seu coração, em socorrer imediatamente aquela jovem desencarnada, em sofrimento há quase 60 anos. E ele, me vendo falar sobre seu gesto, aproximou-se de mim, deu um suave sorriso e me mostrou os próprios braços: ali, a cicatriz dos pulsos cortados, há muito, muito tempo... Ele, que havia sido também alma suicida, hoje alma recuperada, iluminada, trazia ainda consigo as marcas do erro que havia outrora cometido, como a se lembrar que ninguém é infalível...

Trabalharemos sempre pela nossa recuperação, viveremos para isso, não para ocultarmos o nosso passado, mas para transformá-lo, porque fomos criados por Deus, para a beleza e perfeição que nós vamos alcançar de alguma forma, um dia. Conseguiremos, no máximo, adiar, com atitudes menos dignas e nobres, a chegada triunfal do nosso coração totalmente belo e digno à verdadeira morada de todos nós. Lá, haverá, sim, trabalho, porque nós vamos passar a ajudar aqueles que ainda estão no caminho, como hoje nos ajudam os mentores espirituais, aqueles seres que estiveram conosco, que foram nossos amigos, nossos namorados, nossos filhos, mas que, por motivos diversos à sua própria intenção, se adiantaram, foram à frente, mas que hoje não podem ser totalmente felizes, porque nós permanecemos na estrada...

Enquanto não estivermos todos unidos aos corações que mais amamos não seremos completamente felizes. É por isso que, muitas vezes, quando os relógios apontam as seis horas da tarde, muitos de nós sentem suave melancolia, ou, dependendo do nosso problema, uma tristeza grande, porque essa é a hora em que Maria, mãe de Jesus, recolhe a súplica de todas as criaturas... É a hora em que até no Vale dos Suicidas o silêncio acontece. É a hora em que, no Hospital Maria de Nazaré, todos voltam o olhar para o chão, para implorar a proteção da mãe de Jesus ao seu recomeço.

Há uma frase de um anônimo, que eu adoro, que diz assim: “ó Senhor dos grandes recomeços, aqui estou eu, mais uma vez!...”. No fundo, todos nós fazemos a mesma coisa: a cada encarnação, a cada retorno à Terra, nós somos aqueles que, à frente de Deus, dizemos: aqui estou eu, Senhor, mais uma vez, para recomeçar...

Por isso, o que nos importa se as pessoas não nos amarem como queremos?!.. O que nos importará, se as pessoas duvidarem de nós, se as pessoas nos invejarem, se não nos compreenderem, se não observarem a vida como nós observamos?! Todos nós amadureceremos, todos nós chegaremos a esse grande fanal que é a felicidade sem nenhuma mácula, e, quando lá estivermos, nós vamos querer fazer todas as criaturas felizes também.

Por isso também pensemos: as coisas da Terra são tão pequenas, são tão passageiras, e nós nos deixamos enredar por elas, ficamos totalmente amargurados, paralisados, passamos as semanas, os meses, os anos, reclamando que a vida não é aquilo que nós sonhamos quando crianças ou adolescentes, não é aquilo que pretendíamos, mas, muitas vezes, nada fazemos para nos modificar e modificar o nosso destino, não vamos em busca das grandes transformações, ficamos mesmo sem coragem para os  grandes desafios,  permanecemos com medo de encarar de frente aquilo que nós estamos adiando, muitas vezes há varias vidas, para solucionarmos.

Se quisermos, nós sempre encontraremos uma desculpa, sempre haverá uma justificativa, um “ah, eu não posso”, ou “ah, eu não tenho força”, “não é do jeito que eu queria”... e assim a vida irá passando, porque 100 anos, dizia Emmanuel, através de Chico Xavier, “é um relâmpago na eternidade...”.

Ontem, no cine-debate que realizamos à noite, no Cine Brasília, o Dr. Roberto, psiquiatra que dirige o Hospital André Luiz, em Belo Horizonte, nos contava que Chico Xavier, certa feita, recebeu uma senhora que, em grave perturbação, foi até ele e lhe disse: “Chico, eu vim te dizer uma coisa: essa história de Doutrina Espírita não serve para nada. No dia a dia não adianta!!!”. E o Chico, muito tranquilamente, lhe respondeu: “minha amiga, provavelmente você tenha toda a razão...”. A mulher ficou frustradíssima, foi embora, mas, dois anos depois, retornou ao mesmo Chico Xavier e lhe disse: “Chico, eu vim te pedir perdão: Chico, eu estava doida! Chico, Doutrina Espírita é tudo! Chico, Doutrina Espírita resolve tudo na vida da gente!...”. E aí o Chico voltou a responder: “É verdade, minha amiga: provavelmente você tenha toda a razão!”. E aí o Dr. Roberto comentou conosco: “por isso que o Chico nunca ficava doente das emoções!”. Chico Xavier tinha todos os problemas de saúde no corpo físico, mas, emocionalmente, ele era perfeito. E era perfeito também porque ele sabia que a loucura dos outros tem de ficar com os outros, não conosco...

E, às vezes, temos aqueles amigos tão queridos, amados, que nos lançam os seus xingamentos, que nos lançam toda a sua mágoa, que nos lançam a sua inveja, toda a sua desfaçatez... e, depois de tudo, saem ótimos e ainda nos dizem: “nossa! Eu adoro conversar com você! Eu fico ótimo!”. E você, ali, desmaiado; a  sua samambaia, morta; o  seu cachorro, no veterinário!!! Todo mundo pega um pedaço da carga! E, o pior, ainda tem gente que acaba se achando um “médium” daqueles, porque pegou a rebarba e agüentou firme! Mas também é preciso ter cuidado para ajudar. Porque, muitas vezes, de tanto pegar a carga emocional dos outros, e sofrer junto, chorar junto, se amargurar junto, nós podemos acabar adoecendo também da nossa emoção, da nossa vontade, do nosso desejo de sermos melhores e, consequentemente, da nossa disposição para sermos mais felizes.

Não nos esqueçamos, meus amigos, que, dia a dia, os anos vão passando - e como passam rápido! Então felizes de nós se tivermos a sabedoria de tudo aceitar para transformar, não para nos conformarmos. Porque nós precisamos nos indignar sempre com a injustiça, com as maldades, com o que não é certo. Nós devemos, sim, discutir, em sociedade, questões que afetam a todos nós e sobre as quais, muitas vezes, nós fingimos, por causa talvez da religião, que não temos “nada a ver com isso”...

Em três semanas, três bebês recém-nascidos foram encaminhados ao abrigo Nosso Lar. Foram os três lançados na rua, não se sabe por quem. O último foi achado há poucos dias, em cima do lixo, coberto de terra e completamente roxo de frio. E aí, quando ficamos sabendo de atrocidades assim, começamos a pensar sobre o que acontece com uma pessoa que é capaz de pegar um bebê recém-nascido, com cordão umbilical ainda preso ao corpo, e lançá-lo na rua, sem imaginar que uma cobra, um cachorro, um rato, vão atacar aquela criança. É de uma dureza de coração impressionante. Enquanto nós, por exemplo, não discutirmos a questão de levarmos os nossos jovens a meditarem sobre a responsabilidade de uma gravidez, geralmente precoce, nós estaremos sujeitando seres indefesos a estarem no limbo social, essa é que é a realidade.

Nesta semana faleceu o Seu João, do Centro Espírita Irmão Estêvão... Quando eu soube do desencarne desse querido amigo, logo pensei: “...mas Deus é seletivo, né?! Tem levado só quem vai ajudar lá no céu...”. Na verdade o Seu João foi um grande trabalhador da Doutrina Espírita. Empresário de sucesso, fundou  jornal e revista espíritas com o seu próprio dinheiro. E eu me lembro que ,em 1976, quando eu contava 18 anos, no final do Congresso Mundial de Jornalistas Espíritas, estávamos, meninos que éramos, caídos pelas escadas do Ginásio de Esportes, mortos de cansados, quando ele foi o único dos organizadores que veio nos erguer e nos  falar da beleza de termos apenas 18  anos mas já estarmos trabalhando pela Doutrina Espírita. Em abril deste ano, no Congresso que festejou os 100 anos do nascimento de Chico Xavier, lá estava o Seu João, nos recebendo diariamente, à frente de um batalhão de trabalhadores da Federação Espírita Brasileira que o obedeciam com amor, porque viam nele a autoridade moral de quem passa pela Terra apenas fazendo o bem e seguindo o bom exemplo de Jesus.

Se Deus quiser seremos nós também pessoas nobres assim, porque cada pessoa que parte deixa um trabalho que nós devemos dividir entre nós e passar a desempenhar. E a missão de não termos nenhuma vergonha de dizermos que somos amantes dessa doutrina maravilhosa, que nos diz que somos imortais, que voltaremos à Terra quantas vezes forem necessárias, para refazermos o nosso destino, e o destino de todas as pessoas que estiverem à nossa volta.

Vou me despedindo de vocês, assim, quase que com uma tristeza, então me recordei, para nos alegrar, de que, amanhã, domingo, o filme Nosso Lar completará quatro milhões de expectadores, o maior sucesso que o cinema brasileiro já teve! As pessoas estão brincando, dizendo: “ah, eu fiquei tão decepcionada, Mayse.” E eu pergunto: “por quê?! E elas me dizem: “porque eu descobri que, depois que eu morrer, eu vou encontrar tudo do Oscar Niemeyer do lado de lá!!!” E aí eu também brinco, dizendo: “mas de onde você acha que Oscar Niemeyer trouxe toda essa coisa linda que são as curvas da sua obra?! Foi de lá!!!”. Embora ele afirme categórico que é ateu e que não acredita em Deus. Mas Deus acredita tanto nele que ele está aí,  com quase cento e três anos, ainda vivendo e trabalhando belamente.

E, gente: os camelôs cariocas estão imperdíveis!!! Eles estão vendendo DVDs de Nosso Lar,  dizendo: “Comprem Nosso Lar: você não precisa mais morrer para saber como é o céu!” Impagável! E, mais: o jornal O Globo desta semana trazia uma nota,  numa coluna social, muito pitoresca: dizia que agora, no Rio de Janeiro, não se diz mais “fulano morreu”, nem que “ fulano faleceu”. O bonito é dizer que “fulano partiu para o Nosso Lar.”!

Felizes de nós, meus amigos, se pudermos voltar um dia para lá, porque dizem os espíritos que nos acompanham aqui, aos sábados à noite, que muitos de nós viemos de lá, de Nosso Lar. E prometemos nos encontrar dentro de uma casa espírita, para, ao menos de vez em quando, sermos catucados pela nossa própria consciência.

Estamos aqui, sob a tutela, todos nós, sob a tutela absoluta e querida das almas que nos amam desde sempre e que nunca se esquecem de nós. Avançaram, mas não conseguem ser felizes, porque nós não avançamos ainda e elas precisam que estejamos lá com elas. Então façamos tudo para que isso aconteça, o mais breve o possível. Se optarmos por ficar 200, 300 anos como estacionários, ficaremos, nada nos impedirá, porque também o livre arbítrio é sagrado. Ainda que quisessem, os amigos espirituais não poderiam tomar decisões que são só nossas. Eles não podem nos tomar as mãos e nos fazer correr, quando queremos estacionar às vezes por longo tempo...

Mas não nos esqueçamos de que o dia de amanhã vem perto, como nos dizia Emmanuel, através de Chico Xavier, e, ainda que os próximos anos sejam de lutas, serão de lutas vencidas. Ainda que sejam de dores, serão de dores superadas, com certeza. Por isso também o Dr. Bezerra de Menezes, através da mediunidade de Divaldo Franco, ao final do Congresso que homenageou Chico Xavier por seus 100 anos de nascimento, nos dizia: “os outros desistirão; nós, nunca!”. Não há mensagem maior do que esta. Por isso o Cristo nos afirmou: “há muitas moradas na casa de meu Pai, e eu vou para vos preparar o lugar...”

“Ama e obterás as bênçãos do amor.”, disse Emmanuel tantas vezes através do Chico. Amemos até doer, como dizia Madre Tereza de Calcutá. E, quando sentirmos vontade de orar pelas almas suicidas, façamos isso, sem nenhum problema. Elas não se aproximarão de nós, não estarão ligadas a nós pelo sofrimento, mas agradecerão, de onde estiverem, a bênção daquele pequeno bálsamo. Oremos, mesmo que não tenhamos, na nossa família ou entre amigos, nenhum caso assim. Não deixemos de, pelo menos de vez em quando, orar por aqueles que desistiram da vida dessa forma dramática, mas que retornarão de forma talvez ainda mais dramática para recomeçar, muitas vezes do zero...

Que Jesus nos abençoe. Amanhã, sejamos abençoados nas escolhas que fizermos e mais abençoados ainda sejam aqueles a quem, pelo voto, nós dermos a possibilidade de mudar o Brasil. Que eles sejam ainda mais abençoados, porque serão os nossos escolhidos.

 

(a degravação desta palestra só foi possível graças à inestimável ajuda da colaboradora Maristela Rosalvos).